arrow&v

Corpo, pele e afetos

Brigita Baltar

(Rio de Janeiro, Brasil, 1959)

Sempre acreditei que, embora meu trabalho orbitasse entre sentidos existenciais e intimistas, não era autobiográfico. Era como se o particular abrigasse o universal.

 

Hoje acredito que não existam obras que não sejam biográficas, pois somos essencialmente recortados e atravessados pelo que registramos, e respiramos; por nossa cultura, cidade, afetos e desafetos. Nosso trabalho é reflexo dessas vivências. Também sou incrédula sobre o sentido da palavra universal. Somos mistura, o dentro e o fora, em fluxo, em permutas.

Desta vez, tudo se tornou mais urgente:

 

Eu saí do hospital, depois de alguns anos passando por internações que culminaram com um transplante de medula. Nada mais era possível pensar ou sentir, além do que eu havia experimentado. As marcas que estavam na pele, com as quais convivia diariamente, tornaram-se metáforas. Assim iniciei os bordados dos hematomas e das petéquias. O tempo para executar o trabalho correspondia ao período das esperas, que me levou a escolher uma linha mais fina para bordar– usei as de costurar em máquinas. Lentamente apareceram manchas arredondadas, em cores sanguíneas, roxas e esverdeadas; uma geometria orgânica que, se não fosse pela certeza no título, nunca se saberia de que se tratava. Era uma abstração têxtil.

Alguns trabalhos surgiram da expectativa sobre um exame chamado quimerismo, que anunciaria a compatibilidade do doador, e da descoberta de que nos congressos de hematologia projeta-se a imagem do monstro Quimera.

 

O transplantado é um ser quimérico: há um outro dentro de si. Surgiram então as obras bordadas das espécies de plantas em associações biológicas arbitrárias. Novamente dois seres em um: a costela-de-adão costurada à folha vermelha da begônia, os cogumelos com a beterraba e mais cogumelos unidos ao coração da bananeira. O quimerismo das plantas está também nas esculturas em bronze, o material da eternidade, assim como o afeto eterno entre os compatíveis. Algumas recebem o título de Irmãos.

Mais tarde, volto a bordar ainda com a linha bem fina e ainda envolvida com o assunto da pele. Agora as colorações das peles observadas por meio da convivência com Leonardo, com quem estava casada há treze anos. Variações de beges, rosados e marrons, ora mais claros, ora mais escuros. Nuances de partes diferentes dos nossos corpos e tons que dependem do dia, do lugar e da iluminação. O bordado cobre todo o tecido e altera suas dimensões, às vezes apresentando distorções, aproximando da visualidade de uma pele real. Este projeto chamei Minha pele sua pele.

Rio de Janeiro, 2019

Leia o jornal em pdf

01_AF_DIGITAL_Jornal_Bienal12.jpg

Mais artigos

Não há ‘cicatrização’ sem políticas de reparação

Aline Motta

Danço na terra em que piso

Renata Felinto

Marias de minha vida 2019

Mirella Maria

PATROCÍNIO:

FINANCIAMENTO:

REALIZAÇÃO:

Site criado e desenhado pela EROICA conteúdo