VITRINE E OBRAS PERMANENTES

Na Vitrine, um nicho com pouco mais de 1m² voltado para a rua Fernando Machado, artistas expoem trabalhos criados especialmente para esse lugar.

Vitrine

  • Tiago Giora

    Porto Alegre, Brasil, 1978. Vive em Porto Alegre, Brasil.

    Mais do que criar novas formas, os trabalhos de Tiago Giora sublinham desenhos e estruturas já existentes nos lugares onde se inscrevem. A invisibilidade que a arquitetura acaba adquirindo com o tempo é o ponto de partida para suas criações. Apagamento, preenchimento, rebatimento e derramamento são algumas das operações utilizadas pelo artista para reconfigurar espaços, fazendo reverberar certas características e rearticulando também nossa percepção sobre os lugares. É o caso da instalação Fluorescentes (2009), criada para o Centro Cultural São Paulo, em que o artista estendeu até o chão o traçado formado pelas centenas de lâmpadas que iluminam o prédio, chamando a atenção para uma das marcas do local. Já na intervenção De Dentro (2007), realizada no Torreão, em Porto Alegre, dois cantos da sala expositiva foram seccionados por planos de gesso, apagando parte dos rodapés, paredes, teto e janelas. Em ambos projetos, como em tantos outros desenvolvidos por Giora, as inserções do artista absorvem o lugar, tornando indiscernível o que é obra e o que é contexto.(Fernanda Albuquerque)

    Data: 30 de junho a 28 de julho
  • Rogério Severo

    Uruguaina, Brasil, 1966. Vive em São Leopoldo, Brasil.

    Fios, lâminas, serras, pesos, grampos e outras ferramentas e materiais de ferro velho compõem as instalações de Rogério Severo. Sob a forma de circuitos, elas respondem ao espaço onde são construídas. É ele que orienta a distribuição das peças, ainda que os desenhos criados pareçam se manter em aberto, como se pudessem ter seus vetores e linhas de força reconfigurados a qualquer instante. A sugestão de movimento é dada pelo jogo entre tensão e equilíbrio e pelo modo como o artista revela, no próprio trabalho, as operações que o constituem: as amarras, flexões, pesos, contra pesos, trações, fixações, etc. “O que está à mostra não é um projeto acabado, e, sim, possibilidades, fragmentos, intenções", explica Severo. O improviso e a adaptação são centrais no processo criativo do artista. Apesar da simplicidade de procedimentos e materiais, suas obras não se filiam a uma “estética da gambiarra”. Falam, antes, de uma espécie de inteligência dos objetos. Do modo como eles conformam nossos espaços e da possibilidade que guardam de se reinventarem.(Fernanda Albuquerque)


      

    Data: 21 de junho a 28 de julho
  • Viviane Pasqual

    Caxias do Sul, Brasil, 1966. Vive em Caxias do Sul, Brasil.

    Viviane Pasqual é uma contadora de histórias. Suas pinturas, desenhos e objetos criam personagens e sugerem situações, enredos, cenários, como se nos convidassem a animar as imagens ou a fazer delas uma sequência de quadros. A referência ao cartoon aparece não só no traço, mas na presença constante do humor – como nas placas que anunciam o “churrasquinho do lobo gordo a 1,75 cruzeiros”, o “mocotó de lambê os beiço”, o “vira-lata nervoso” ou o “clube dos albinos anônimos”. Dizeres jocosos e irreverentes compõem seus trabalhos, reforçando o traço cartunista das obras e a alusão ao universo popular, seja pelas inscrições, muitas vezes retiradas de anúncios encontrados na rua, pelo despojamento das imagens e soluções gráficas ou pelos materiais utilizados. Placas, letreiros, rótulos e bolachas de chopp são alguns dos elementos que dão suporte às histórias de Viviane. O acúmulo e a repetição – para cada série, são dezenas e dezenas de trabalhos – são outros componentes importantes de sua obra e também os procedimentos que guiam o projeto desenvolvido para a vitrine da Casa M. (Fernanda Albuquerque)

     

    Data: 30 de julho a 25 de agosto
  • Helene Sacco

    Canguçu, Brasil, 1975. Vive entre Pelotas e Porto Alegre, Brasil.

    Helene Sacco passou a infância mudando de cidade. De cada morada, levava apenas os objetos e as lembranças. A fantasia de carregar consigo o “esconderijo em caso de erupção vulcânica” ou a “escada boa pra descer de colchonete” só pareceria possível anos mais tarde, quando vivendo em Santa Catarina, deparou-se com a cultura das famílias locais de transportarem suas casas. Retratado em uma série de fotografias, o curioso hábito está na origem do projeto Casa Movente (2007-2010). Espécie de objeto-lugar, a habitação de pouco mais de 3 m², com quarto, cozinha, sala e banheiro, já ocupou as ruas de Pelotas e Criciúma, sempre com a moradora a bordo. O modo como habitamos um lugar e como ele nos habita, as memórias que carrega em seus móveis e objetos, o território que instaura e as situações de convívio que permite criar são alguns dos temas que interessam à artista. Para a vitrine da Casa M, a ideia é fazer do espaço de pouco mais de 1 m² um gabinete de estudos onde a artista possa ler, escrever e desenhar. Ao longo das três semanas de exposição, parte desse ambiente deve se desprender do sobrado para ocupar a Rua Fernando Machado.

    (Fernanda Albuquerque)

    Data: 27 de agosto a 21 de setembro
  • Rommulo Conceição

    Salvador, Brasil, 1968. Vive em Porto Alegre, Brasil.

    Desde suas primeiras experiências, Rommulo vem trabalhando a partir do modo como a arquitetura configura espaços. Primeiro, atuou em lugares específicos, como a fachada de uma casa prestes a ser demolida e a torre de um antigo casarão. De uns tempos pra cá, passou a trabalhar com espaços mais genéricos: salas de estar, cozinhas, banheiros, corredores, supermercados. Ambientes que trazem consigo uma espécie de identidade. Um conjunto de características que os diferencia de outros espaços e lhes permite atender a determinadas funções. Ou alguém consegue imaginar um quarto de dormir sem uma cama? À primeira vista inquestionáveis, nossas idéias e percepções sobre espaços cotidianos são colocadas em xeque pelas criações do artista, sejam elas fotografias, desenhos, objetos ou instalações. Ao aproximar realidades tão distintas quanto uma cozinha e um banheiro ou um cinema e um supermercado, Rommulo embaralha construções identitárias aparentemente fixas. Cria ambientes deformados, lugares desconcertantes, ainda que impecavelmente bem acabados e muitas vezes funcionais. A ambiguidade que marca suas arquiteturas, ora mais sutil, ora mais agressiva, também parece ser responsável pela atração que elas exercem ao nosso olhar.

    (Fernanda Albuquerque)

     

    Data: 24 de setembro a 27 de outubro
  • Glaucis de Morais

    Lajeado, Brasil, 1972. Vive entre Paris, França, e Porto Alegre, Brasil.

    A ideia de impossibilidade está presente em muitos trabalhos de Glaucis de Morais: na imagem que revela uma ponte entre dois abismos, nas fotografias que tentam capturar o voo de um pássaro ou a passagem de um avião, na tentativa de manter de pé um castelo de cartas, na série que retrata o desvanecimento do corpo em meio à escuridão. Operações sutis – delicadas na forma, mas agudas nas reflexões que evocam – compõem a obra da artista, que se vale de diferentes linguagens: do vídeo à fotografia, passando pelo desenho e pela instalação. Os modos de habitar um lugar, seja ele a cidade ou o espaço íntimo da casa, são um tema frequente em seus trabalhos. Caso da intervenção em que dispõe o aviso “Reservado” em parques e praças de Paris e Porto Alegre, embaralhando as noções de público e privado e sugerindo outra impossibilidade.(Fernanda Albuquerque)

    Data: 29 de outubro a 24 de novembro
  • João Genaro

    Poços de Caldas, Brasil, 1983. Vive em Pelotas, Brasil.

    A aproximação de duas realidades aparentemente inconciliáveis está na base dos trabalhos de João Genaro. Sempre com uma boa dose de humor, o artista se vale de um procedimento caro ao Surrealismo para criar objetos e situações paradoxais, que muitas vezes partem de comentários à história da arte. É o caso do Parangolé Simoniano (2009), que mescla um traje típico gaúcho, o poncho, a uma obra icônica da arte brasileira, os Parangolés de Hélio Oiticica, capas coloridas feitas para serem experimentadas pelo público. Usada pelo artista em performances não anunciadas, a peça homenageia o escritor regionalista Simões Lopes Neto, natural de Pelotas, aproximando referências artísticas de naturezas distintas. Outros exemplos são Fat Chair (2010), cadeira com uma estrutura de espuma em seu assento que remete à famosa obra de Joseph Beuys, e Homenagem a Torres García (2007), composição construtivista realizada com peças de lego. A sugestão de interação é outro elemento recorrente na obra de João Genaro, como no machado protegido por uma caixa de vidro onde se lê “em caso de crime, castigue o vidro” e no saco de boxe recheado com 50 kg de barro que ostenta a inscrição “sove”.(Fernanda Albuquerque)

     

    Data: 26 de novembro a 17 de dezembro

Obras Permanentes

  • Daniel Acosta

    Rio Grande/RS, Brasil, 1965. Vive em Pelotas/RS, Brasil.

    Entre objetos e lugares, paisagens e arquiteturas, os espaços criados por Daniel Acosta oferecem o que o artista chama de «disponibilidade multifuncional». Marcadamente distintos dos contextos onde se inserem – da praia à cidade, passando por museus e galerias – eles parecem se camuflar senão visual, pelo menos funcionalmente. Dependendo das características e usos do lugar, podem figurar como ponto de encontro, espaço de leitura, área de descanso, ambiente de trabalho, local de conversa, entre outras possibilidades. Tais trabalhos têm sua origem nas «paisagens portáteis» do início dos anos 2000, que também se apresentavam como híbridos entre objetos e lugares. Plástico, fórmica e lâmpadas fluorescentes criavam ambientes assépticos e impessoais. Ao embaralhar um sem número de referências arquitetônicas – cabines, elevadores, quiosques, piscinas –,  pareciam-se com quase tudo e praticamente nada ao mesmo tempo. Como nas obras mais recentes, o que estava em jogo era desafiar nossa percepção a escapar dos registros que habitualmente informam a decodificação do mundo e rapidamente articulam aparências e funções, materiais e lugares, imagens e significados. A chamada «disponibilidade multifuncional» também está presente em REPLIKASHELVESYSTEM, peça desenvolvida pelo artista para abrigar a coleção de livros e revistas de arte da Fundação Bienal na Casa M. O trabalho marca a entrada da sala de leitura, organizando o ambiente. De desenho geométrico e estrutura modular, retoma aspectos caros à sua poética, como a criação de equipamentos que se articulam entre arquiteturas e paisagens.(Fernanda Albuquerque)

  • Vitor Cesar

    Fortaleza, Brasil, 1978. Vive em São Paulo, Brasil.

    As noções de público e esfera pública são caras ao trabalho de Vitor Cesar. Muitas vezes apresentados em espaços não artísticos, seus projetos quase sempre envolvem uma estratégia de comunicação com o outro e uma problematização do contexto em que se inserem – ou dos discursos que alimentam o imaginário sobre determinado lugar. Cartazes, painéis e letreiros são alguns dos dispositivos utilizados pelo artista em propostas que se confundem com práticas e elementos da vida comum. É o caso da ação em que o artista disponibilizou um serviço de xerox que realizava cópias gratuitas de materiais com a palavra «público», do cartaz distribuído por Fortaleza com a inscrição «permitido», seguindo o mesmo padrão visual de placas de trânsito, ou ainda da inscrição «artista é público» disposta em letras de alumínio no saguão de um centro cultural. Quem são os públicos da arte? Quais as relações entre artista e público? É possível constituir uma esfera pública por meio da arte? Discussões como essas permeiam os trabalhos de Vitor Cesar e parecem ganhar força na medida em que o contato com suas obras se dá sem a intermediação institucional da arte, isto é, sem que se saiba, necessariamente, que se tratam de projetos artísticos. É o que acontece no projeto criado para a Casa M, em que o artista desenvolve uma campainha para o local. Ao ser acionada, ela dispara diferentes toques ao longo da morada, dando as boas vindas a quem chega e evocando a diversidade de públicos do lugar. Entre a sinfonia e a dissonância, o trabalho celebra a possibilidade do encontro, sem nivelar diferenças nem eliminar ruídos, sem apaziguar divergências nem desconsiderar especificidades.

    (Fernanda Albuquerque)

  • Fernando Limberger

    Santa Cruz do Sul/RS, Brasil, 1962. Vive em São Paulo, Brasil.

    Os trabalhos de Fernando Limberger apresentam-se como paisagens. Articulam vegetação, pedras, formas geométricas e planos de cor em jardins que combinam exuberância e simplicidade, natureza, artifício e racionalidade. Suas composições reconfiguram os ambientes onde se inscrevem, alterando o modo como a natureza os integra ou atravessa, seja pelo uso da cor e efeitos de luz provocados, pela poda e limpeza das espécies ou pela subtração/inserção de novos elementos. A transformação da natureza por meio da ação humana e o modo como ela também age sobre essa intervenção está presente em boa parte de suas criações. Exemplo disso são as sementeiras, mudas e canteiros de cor do projeto Fértil (2003), que estão na origem dos jardins coloridos, recobertos por areias tingidas de rosa e amarelo – inócuas ao meio ambiente. Assim como eles, os arranjos que compõem as instalações Células Verdes (2008) e Complementares (2010) ostentam uma natureza domesticada, ainda que vigorosa, problematizando as contradições e ambivalências dos discursos ambientalistas que tentam dar conta da complexa relação entre o homem e a natureza. Questões similares estão colocadas no trabalho desenvolvido para o pátio da Casa M. Em meio a uma vibrante topografia em tons de vermelho, roxo e rosa, dois elementos pontuam a paisagem: um abacateiro de copa farta e iluminada e um cubo de madeira queimada. Vida e morte, luz e sombra, natureza e racionalidade são alguns dos binômios evocados pela sedutora e ao mesmo tempo desajustada dupla. Um drama parece se desenhar – enquanto tomamos sol, jogamos conversa fora, compartilhamos um chimarrão ou lemos um livro nesse jardim feito obra. (Fernanda Albuquerque)

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