Seminário Internacional

Porto Alegre, 2020

24-25 de abril

Sede

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS

 

Organização

Fundação Bienal do Mercosul – Bienal 12 Porto Alegre

Instituto de Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS

Curso de Artes Visuais, Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, UERGS

Center for Latin American Visual Studies, The University of Texas at Austin, CLAVIS / UT

 

Realização

Fundação Bienal do Mercosul

                            A história da arte foi escrita a partir de pontos de vista e gostos que constituíram o cânone predominantemente patriarcal da arte. Como perguntaram e destacaram as Guerrilla Girls: “As mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu de Arte de São Paulo? Apenas 6% dos artistas do acervo são mulheres, mas 60% dos nus são femininos”. Este coletivo de artistas formado nos Estados Unidos em 1985 nos oferece gráficos com porcentagens que caracterizam as coleções e as exposições de todos os museus do mundo. Apesar de sua maioria demográfica, as mulheres são marginalizadas no mundo da arte. De diversas maneiras as artistas fizeram intervenções na lógica que articula o cânone da arte. Em primeiro lugar o fizeram  sutilmente; atualmente seus apontamentos e ações tomaram força, acompanhando, amplificando e ativando a crescente onda do feminismo internacional.

                           Transformar o mundo através da arte: tal é o desejo que alimentou o ativismo artístico durante o longo século XX. O ativismo feminista é, principalmente, a voz de um desacato generalizado em relação ao poder masculino que regula o estado do mundo e da arte. Um ativismo que opera a partir da realização de imagens, ações ou discursos críticos que intervêm nas formas do poder para erodi-lo. Interferem quando participam das lutas sociais ou quando se manifestam sobre a invisibilização das mulheres no mundo da arte. Ao menos desde o século XVIII encontramos vozes dissidentes. Vozes que se posicionam sobre o estatuto da mulher em geral, sobre as normativas de gênero e sexualidade e sobre as mulheres artistas em particular. Em uma arqueologia da cultura do Ocidente recortam-se os comentários sobre arte que podem ser encontrados nos escritos de Germaine de Staël, Élisabeth Vigée-Lebrun, Marie d’Agoult, ou B., atentas à instrução das mulheres em função de sua emancipação e inclusive, como se pode acompanhar nos escritos de Johanna von Haza, a um questionamento das identidades de gênero e de raça.

Desde o final dos anos sessenta o feminismo inscreveu um capítulo específico e radical na arte do pós-guerra. Trata-se de propostas estéticas cujas estratégias romperam as bases patriarcais do gosto para trabalhar a partir de fazeres e materiais não hierarquizados no repertório da grande arte (tecidos, rendas, bordados, cerâmicas, porcelanas, vernizes e esmaltes, marginalizados pelas linguagens maiores da pintura e da escultura), ou com temas femininos (a casa, a maternidade, as substâncias tabu do corpo). Tratou-se e se trata de rebeliões da linguagem e de iconografias que se integram como zonas de investigação e como espaços de ativismo: desde a afirmação de que o pessoal é político, até as denúncias de abusos, violações, violências físicas e psicológicas contra a mulher. Trata-se de sinais que conformam também o núcleo da agenda contemporânea, na qual é central a luta contra os feminicídios. Trata-se dos direitos sobre o próprio corpo. 

                         A experiência do espaço Womanhouse em Los Angeles ou a obra de Judy Chicago ou Miriam Schapiro são as cenas e as vozes a partir das quais se ativou o feminismo artístico no início dos anos setenta. O cinema, as revistas, as pedagogias foram campos do ativismo artístico. Foram-no as imagens das artes pictóricas e escultóricas, e também a intensa politização dos corpos que se produziu a partir das performances, da fotografía ou do vídeo em artistas como Esther Ferrer, Mónica Mayer, Maris Bustamante, Lea Lublin ou Josely Carvalho. A psicanálise freudiana ou lacaniana, a sociologia, em articulação com as sucessivas agendas do feminismo, formaram os campos de conhecimento a partir dos quais atuaram para desarmar os estereótipos sobre a mulher e o binarismo. Cartazes urbanos, estênceis, estatísticas, são as linguagens gráficas a partir das quais deram e dão visibilidade a suas ações na esfera pública. No ativismo feminista contemporâneo podemos mencionar as exposições de Ciu Xiuwen e Cui Guang Xia na China, as estratégias das Pussy Riots na Rússia, as Mujeres Públicas ou Nosotras Proponemos na Argentina, as Trabajadoras del Arte y la Cultura no Chile, a carta coletiva “We are not surprise” nos Estados Unidos, a carta sobre o machismo no festival de fotografia de Arlés na Europa, a obra de Lady Skollie contra as violações na África do Sul, ou o graffiti de Panmela Castro sobre os altos índices de violência contra as mulheres nas ruas do Rio de Janeiro, ou o  ativismo negro e feminista levado adiante desde os anos setenta por Suely Carneiro em São Paulo.

               Existe um intenso e crescente ativismo curatorial que se centra em exposições que contribuem para gerar corpus de obras de artistas invisibilizadas pelas histórias da arte e mapas globais ou regionais que permitem dar corpo a uma história da arte que contesta àquela dominante, baseada em uma tradição na qual artistas homens constituem de 80 a 90% do relato principal – porcentagem que apenas recentemente começa a mudar, precisamente, a partir do ativismo artístico feminista. Aquilo que na década das mulheres (1975-1985) não chegou a se modificar começa a dar sinais de uma transformação.

                         Desde os anos 70 é crescente o ativismo artístico vinculado a estéticas lésbicas, gay, trans, queer/cuir centradas em sexualidades fluídas, em corpos feminilizados e na problematização dos essencialismos. São visíveis em grupos como Chaclacayo ou no Museo Travesti de Giuseppe Campuzano, ambos no Peru ou nas propostas de Jota Mombaça no Brasil. Estéticas lésbicas, gay, trans, intersexuais, inclui-se na denominação proposta como feminismo(s): o feminino ou feminilizado como o outro excluído e marginalizado.

Estas menções apenas começam a desenhar um marco de referência sobre uma cena que se expande na contemporaneidade e cujos casos específicos este seminário tem como propósito cartografar e investigar.

 

 

O seminário tem como propósitos gerais

 

1.     Analisar estudos de casos (por exemplo, a análise de um único trabalho baseado em uma investigação em fontes e arquivos) para revelar pontos de contato e de divergência entre as estratégias seguidas por feminismo(s) artísticos comparáveis.

2.     Propor genealogias e mapas de feminismo(s) locais, regionais e globais.

3.     Compartilhar enfoques teóricos e metodológicos que permitam visualizar a especificidade destas intervenções e suas negociações com a cultura dominante.

4.     Debater as transformações que se produziram nos últimos anos a partir de exposições de artistas mulheres ou centradas em agendas queer/cuir/trans, bem como as reações que produziram sob a forma de adesões, manifestações ou distintas formas de censura.

 

 

Estas problemáticas podem ser pensadas a partir dos seguintes tópicos vinculados aos feminismo(s) no campo da arte:

 

-       Olhares sobre o passado e sobre o presente. Genealogias e casos específicos de ativismo artístico entre os séculos XVIII e XXI

-       Feminismos interseccionais / Feminismos negros no mundo da arte

-       Feminismos da igualdade e da diferença. Políticas afirmativas. Gueto ou inclusão nas histórias da arte?

-       Questionar o cânone. O conceito de qualidade como ideologema.

-       Ativismos da imagem.  Ações dentro e fora do museu. Intervenções urbanas: pôsteres, estêncis, maquiagens, entrevistas, lenços, bandeiras.

-       Ativismo curatorial. As exposições como estratégias de historização e de visibilização.

-       Ativismo acadêmico. Estratégias das histórias da arte feministas: desde o estudo de caso aos mapas e genealogias.

-       Ativismos e pedagogias. Academia, currículos, cursos e seminários: o poder das bibliografias.

-       Ativismos cromáticos. Identificações e cores da ação.

-       Ativismos editoriais: revistas, livros, ensaios. Escrever para transformar.

-       Ativismos do texto: manifestos, compromissos, cartas, declarações.

-       Ativismos e redes internacionais. Alianças para além das fronteiras. Formalizações e adesões.

-       Ativismos e políticas das frentes culturais. Sócios e aliados.

-       Ativismos dos conceitos: Gênero / feminismo: capital simbólico, político e contextos.

-       Polêmicas, censuras e autocensuras. Arte, estado, religiões. Expressões em regimes de exceção.

-       Escândalos na arte. Negociar com as instituições e com os discursos públicos.

 

 

O seminário se realiza ao longo de 2 dias, em 4 sessões diárias de 4 comunicadores cada uma, que terão 15 minutos para realizar sua apresentação, seguidos de 30 minutos de debate. De acordo com a quantidade de comunicações selecionadas, serão organizados painéis simultâneos.

Serão recebidas propostas de estudantes de doutorado ou mestrado, graduados, professores, curadores e ativistas culturais e artísticos.

Os idiomas da conferência serão português, espanhol e inglês.

 Data limite para a apresentação de propostas: 10 de março de 2019

Instruções para a apresentação de propostas:

 

  • A comunicação pode ser escrita e apresentada em português, espanhol, ou inglês. Indicar na apresentação da proposta o idioma em que se fará a comunicação.

  • Resumo de 800 palavras em português , espanhol ou inglês, e um breve currículo de não mais de 60 palavras em português ,  espanhol ou inglês.

  • A proposta será considerada submetida quando o autor receber uma confirmação de envio por correio eletrônico.

  • Apresentação de propostas : seminario.internacional@bienalmercosul.art.br

 

Comunicações finais e apresentações:

 

-       A extensão das comunicações não pode exceder 1900 palavras.

-       A data limite para a submissão de comunicações é 20 de janeiro de 2020.

-       O programa será distribuído no final de março de 2020.

-       Espera-se que todos os comunicadores tenham lido as comunicações de seus companheiros de painel e estejam prontos para fazer comentários e participar da discussão. As comunicações irão circular antecipadamente apenas entre os membros de cada painel.

-       Cada comunicador terá um máximo de 15 minutos para apresentar seu trabalho e os materiais visuais que os acompanhem. Esperamos que esta mecânica de trabalho facilite uma discussão ativa entre os painelistas, os moderadores e a audiência.

 

As comunicações apresentadas serão publicadas em formato digital, no site da Fundação Bienal do Mercosul.

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Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul

Rua General Bento Martins, 24 - Conj. 1201

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