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Bombril (2010-ongoing)

Priscila Rezende

(Belo Horizonte, Brasil, 1985)

Na performance “Bombril” (2010-ongoing), por um período de aproximadamente 1 hora, esfrego uma determinada quantidade de objetos de material metálico, e usualmente de origem doméstica, com meus próprios cabelos.

“Bombril”, além de uma conhecida marca de produtos para limpeza e de uso doméstico, faz parte de uma extensa lista de apelidos pejorativos, utilizados na sociedade brasileira para se referir a uma característica do indivíduo negro, o cabelo.

Como frequentemente acontece com pessoas negras, meu cabelo foi foco de constantes deboches durante diversos períodos da minha vida. Ao contrário do que afirmam os opressores que proferem essas palavras, esses comentários não são “só uma brincadeirinha”. Esses comentários deixam seus rastros na personalidade, no comportamento e no âmago de quem os recebe. A consciência destas marcas, paradoxalmente, se tornou um ponto forte em minha identificação e valorização como mulher negra.

Acredito que, em um primeiro momento, a imagem concretizada na performance “Bombril” remete ao espectador diretamente a essa cruel redução do corpo do indivíduo negro a um objeto, mas afirmo que a performance não se refere somente a uma opressão estética.

 

Minha opção por usar uma vestimenta que alude a uma escravizada foi por observar, ao longo dos anos, o lugar reservado na sociedade para nós, mulheres negras. Por nossos traços — textura de cabelo e cor da pele — somos impelidas às posições subalternas. E ainda hoje, na sociedade contemporânea, nos vemos aprisionadas pelo racismo e empurradas para as invisíveis senzalas modernas.

Durante a performance, ao esfregar estes objetos, eu estou ao chão e coloco-me em posição desconfortável, tanto física quanto moralmente, me transformando, mesmo que momentaneamente, naquele objeto: o cabelo que lava e esfrega utensílios domésticos, o corpo que serve aos demais objetos, ao espectador.

 

Em “Bombril” meu corpo se apropria da posição pejorativa a ele atribuída, transformando-o em uma imagem de confronto. Nesse contexto, o espectador se defronta com sua própria fala discriminatória e é obrigado a encará-la, sem que haja opções para evasivas, subterfúgios ou digressões. A imagem presenciada durante a ação “Bombril” é propositadamente desconfortável, não existe comodismo em sua visão.

“Bombril” foi realizada originalmente no ano de 2010. Ao longo desses dez anos de existência desse trabalho recebi e continuo recebendo diversas reações diante dessa imagem, de risos e escárnios de sujeitos não empáticos, demonstrações de remorsos e pedidos de desculpas por parte de opressores, a afirmações de identificação e lágrimas.

 

Eu compreendo que a imagem criada e concretizada na performance “Bombril” é cruel e pode também vir a ser dolorosa, pois remexe com lembranças profundas de quem já foi ou ainda é alvo do racismo ainda enraizado em nossa sociedade. Mas tenho certeza de que responsabilidade pela existência dessa crueldade não está nesta performance. Ela existe na perversidade perpetuada pelas práticas racistas.

O racismo atua na sociedade brasileira como um crime que muitas vezes pode ser sutil, silencioso, e que transfere a culpa para aquele que é oprimido com afirmações de que “vemos racismo onde ele não existe” ou de que somos radicais em nossas reações de indignação diante das opressões as quais experienciamos.

Durante muitos anos de minha vida, eu sequer fui capaz de identificar as situações de racismo às quais era submetida. O processo de consciência do que significa ser uma mulher negra nesta sociedade é muitas vezes por si só muito doloroso, mas acredito ser também libertador.

Em minha experiência, e acredito que como é de costume a toda a população negra, somos compelidos a não falar sobre o assunto, a internalizá-lo e a responder de forma passiva. Mas o racismo mata, quando não o faz fisicamente, o faz emocionalmente, mentalmente, psicologicamente. Eu decidi não ser obediente a essa determinação que deseja corpos negros inertes, controlados, subordinados.

 

“Bombril” é o corpo que se recusa a ser escravizado nesse silêncio. É, primeiramente e acima de tudo, um grito.

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